Sim, sou mulher e amo Formula 1.
É, gente, isso existe, isso é possível. Não é porque eu tenho dois ovários, um útero e uma vagina que é humanamente impossível que eu goste de automobilismo. Aliás, conheço algumas outras moças que gostam também, não é tão incomum assim. Até onde eu sei estrogênio não repele octanos.
Já ouvi comentários do tipo: “Ah, você gosta de carro, é? Você é lésbica?” ou “Hm, você gosta de Formula 1 por causa do esporte em si ou dos pilotos?”. Admito que os pilotos são sim extremamente agradáveis, mas na hora da corrida eles estão de macacão, luvas e capacete. Isso é o equivalente a uma burca, não dá para ver nada. Então, digamos que os atributos dos pilotos são um plus. Um plus deveras aprazível, mas plus de qualquer forma.
Eu assisto Formula 1 desde criança. Coisa de família, sabe? Acho que era comum as famílias se juntarem domingo de manhã para assistir às corridas, lá em casa era assim. Até o Senna morrer. Eu tenho total entendimento que muita gente parou de assistir depois do fatídico 1º de maio de 1994, que todo brasileiro queria esquecer. Sempre ouço: “Formula 1 depois que o Senna morreu perdeu toda a graça”. Isso quer dizer que muita gente que tem seus vinte e poucos anos não cresceu assistindo Formula 1, porque era criança quando isso aconteceu e as famílias perderam o hábito. Acontece que eu perseverei. Não sei por que, mas eu sempre gostei. Claro, não tinha uma síncope se deixasse de assistir tal ou tal corrida, mas gostava. Com o passar dos anos, fui passando de fã a viciada. Hoje em dia eu tenho depressão pós-temporada, acordo às 2hs da manhã pra assistir GP do Japão, grito com o Galvão Bueno durante as corridas, discuto calorosamente em mesas de bar com homens duas vezes maiores que eu sobre como o Webber é melhor que o Vettel e digo para quem quiser escutar que acho sinceramente que ainda vamos ouvir muito o nome do Rosberg (do filho, Nico. Do Keke a gente já ouviu).
Tudo que eu sei é: o barulho dos motores me arrebata, a velocidade me hipnotiza, a adrenalina dispara quando as luzes vermelhas se apagam, e, vá lá, eu fico sim encantada pelos pilotos. Por alguns deles eu fico até bastante encantada.
E eu sou feliz assim. Eu sou uma moça e amo Formula 1.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Ladies and gentleman, start your engines!
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
I want to get physical
Me matriculei em uma academia de ginástica.
Ouço as trombetas do Apocalipse.
Fui fazer a avaliação física e acabei sendo ludibriada a já começar a malhar: “Vamos montar suas séries logo, Ana Carolina? Aí você já pode começar o mais rápido possível”. Hm. Tá. Tá bom então.
Enquanto eu era semi-obrigada (eu podia dizer “pensando bem, nem tô nessa vibe não”, mas o rapaz era grande, não convém discutir) a fazer movimentos repetitivos e exaustivos em máquinas que lembram aprestos de tortura medieval, eu comecei a pensar sobre o significado de uma academia de ginástica.
É um lugar de martírio por natureza. A começar pela indumentária. Roupas de ginástica nunca favorecem ninguém. Cortes estranhos, cores e estampas ridículas e em geral são tão apertadas que a pessoa parece embalada a vácuo. Aí, além disso, temos o fato já mencionado de que passa-se um tempo considerável fazendo movimentos repetitivos e nada naturais, que levam invariavelmente à dor generalizada que praticamente impossibilita todo e qualquer movimento antes mesmo que se pense em realizá-lo. Obviamente, não se pode esquecer a fauna extremamente diversificada e exótica que se encontra em academias. Todos nós conhecemos bem os tipos. Estudos antropológicos esperando para serem realizados todos os dias em cada academia desse Brasil varonil. Aliás, varonil é um termo que se enquadra bem nesse tema, embora alguns desses rapazes sarados não me enganem nem um pouco. Um número razoável desses rapazes, na verdade. Muitos desses rapazes. Tá, talvez não se enquadre tão bem assim.
Então nesse ambiente de opressão psicológica e dor física você simplesmente reza para que tudo acabe logo. Você não sabe se as pessoas estão olhando para você, para sua roupa ou para sua cara de sofrimento. Você está cansado, dolorido e intimidado e só que ir embora. Mas isso não é tudo. Existe ainda o fato de que tomar banho em academia é deprimente. Sabe Deus quem freqüenta aquelas instalações. É melhor voltar para casa todo suado, com cabelo colado na testa, cara de maluco e ofegante até não dar mais do que se sujeitar ao duvidoso chuveiro de academia. Nem de chinelo. Nem de tênis. Aliás, nem com aquela roupa especial do esquadrão anti-bombas. E o pior é que a gente paga para isso tudo.
Mas eu tenho esperanças de que esses sentimentos negativos vão passar. As endorfinas vão fazer seu trabalho e me deixar feliz, e aí eu não vou mais odiar atividades físicas e tudo que lembre o assunto. Vou ser uma pessoa saudável, responsável e pela primeira vez na minha vida não vou abandonar alguma coisa no meio do caminho. Tudo isso enquanto eu uso calça de ginástica.
Foi então que acordei de meus devaneios, terminei minha via-crúcis e tentei sair o mais rápido possível de lá mas ainda ouvi ao fundo “amanhã a gente se vê, hein?”.
É né, fazer o quê?
Ouço as trombetas do Apocalipse.
Fui fazer a avaliação física e acabei sendo ludibriada a já começar a malhar: “Vamos montar suas séries logo, Ana Carolina? Aí você já pode começar o mais rápido possível”. Hm. Tá. Tá bom então.
Enquanto eu era semi-obrigada (eu podia dizer “pensando bem, nem tô nessa vibe não”, mas o rapaz era grande, não convém discutir) a fazer movimentos repetitivos e exaustivos em máquinas que lembram aprestos de tortura medieval, eu comecei a pensar sobre o significado de uma academia de ginástica.
É um lugar de martírio por natureza. A começar pela indumentária. Roupas de ginástica nunca favorecem ninguém. Cortes estranhos, cores e estampas ridículas e em geral são tão apertadas que a pessoa parece embalada a vácuo. Aí, além disso, temos o fato já mencionado de que passa-se um tempo considerável fazendo movimentos repetitivos e nada naturais, que levam invariavelmente à dor generalizada que praticamente impossibilita todo e qualquer movimento antes mesmo que se pense em realizá-lo. Obviamente, não se pode esquecer a fauna extremamente diversificada e exótica que se encontra em academias. Todos nós conhecemos bem os tipos. Estudos antropológicos esperando para serem realizados todos os dias em cada academia desse Brasil varonil. Aliás, varonil é um termo que se enquadra bem nesse tema, embora alguns desses rapazes sarados não me enganem nem um pouco. Um número razoável desses rapazes, na verdade. Muitos desses rapazes. Tá, talvez não se enquadre tão bem assim.
Então nesse ambiente de opressão psicológica e dor física você simplesmente reza para que tudo acabe logo. Você não sabe se as pessoas estão olhando para você, para sua roupa ou para sua cara de sofrimento. Você está cansado, dolorido e intimidado e só que ir embora. Mas isso não é tudo. Existe ainda o fato de que tomar banho em academia é deprimente. Sabe Deus quem freqüenta aquelas instalações. É melhor voltar para casa todo suado, com cabelo colado na testa, cara de maluco e ofegante até não dar mais do que se sujeitar ao duvidoso chuveiro de academia. Nem de chinelo. Nem de tênis. Aliás, nem com aquela roupa especial do esquadrão anti-bombas. E o pior é que a gente paga para isso tudo.
Mas eu tenho esperanças de que esses sentimentos negativos vão passar. As endorfinas vão fazer seu trabalho e me deixar feliz, e aí eu não vou mais odiar atividades físicas e tudo que lembre o assunto. Vou ser uma pessoa saudável, responsável e pela primeira vez na minha vida não vou abandonar alguma coisa no meio do caminho. Tudo isso enquanto eu uso calça de ginástica.
Foi então que acordei de meus devaneios, terminei minha via-crúcis e tentei sair o mais rápido possível de lá mas ainda ouvi ao fundo “amanhã a gente se vê, hein?”.
É né, fazer o quê?
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
As coisas que a gente faz pra esquecer a realidade
São engraçadas as coisas que a gente faz pra esquecer o quão desagradável a vida pode ser. Coisas que, vendo de fora, fazem parecer que está tudo ótimo, que estamos felizes, até. Na verdade, é tudo para tentar abafar aquele silêncio que aperta, oprime, pesa. Nem que seja um pouquinho.
Cantar no chuveiro, ler pilhas e pilhas de livros, caminhar na praia, ir a um bar em plena terça-feira, se perder naquele rapaz que tem os olhos lindos.
Parece que a gente quer só aproveitar a vida e tudo que ela tem para oferecer.
Só que a gente sabe bem, é exatamente o contrário.
É para esquecer, por alguns minutinhos que sejam, o quão desagradável a vida pode ser.
Cantar no chuveiro, ler pilhas e pilhas de livros, caminhar na praia, ir a um bar em plena terça-feira, se perder naquele rapaz que tem os olhos lindos.
Parece que a gente quer só aproveitar a vida e tudo que ela tem para oferecer.
Só que a gente sabe bem, é exatamente o contrário.
É para esquecer, por alguns minutinhos que sejam, o quão desagradável a vida pode ser.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Telemarketing merece a morte
OK então.
Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, mocinha-da-Claro: Você vem tentando me ligar desde sábado, e quando finalmente consegue, é estúpida. Acredito que, se você está me importunando, você deveria ser, para dizer o mínimo, educada.
A conversa se seguiu assim:
Eu: "Alô?"
Mocinha-da-Claro: "Boa tarde, eu sou fulana de tal da Claro, com quem eu falo?"
Eu: "Ana Carolina"
Mocinha-da-Claro: "Senhora Ana Carolina, estou ligando para oferecer alguns serviços e promoções..."
Eu: "Obrigada, mas eu não estou interessada"
Mocinha-da-Claro: "Mas como você não está interessada se você ainda nem sabe o que é?"
Eu: "Estou satisfeita na minha companhia, não pretendo trocar."
E então ela desliga o telefone na minha cara.
Gata, eu não tenho culpa se você escolheu um emprego escroto que não te satisfaz. Não posso fazer nada se você está de mal humor. Não tenho nada a ver com a sua vida, não posso te julgar. Mas a partir do momento que você me liga, interrompe seja lá o que for que eu estou fazendo e começa a falar de forma ininterrupta sobre alguma coisa que eu não pedi pra saber, quem deveria ficar irritada era eu, e não você.
Estamos entendidas? Espero que sim, porque eu também sei ser bem grossa quando eu preciso, ok?
Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, mocinha-da-Claro: Você vem tentando me ligar desde sábado, e quando finalmente consegue, é estúpida. Acredito que, se você está me importunando, você deveria ser, para dizer o mínimo, educada.
A conversa se seguiu assim:
Eu: "Alô?"
Mocinha-da-Claro: "Boa tarde, eu sou fulana de tal da Claro, com quem eu falo?"
Eu: "Ana Carolina"
Mocinha-da-Claro: "Senhora Ana Carolina, estou ligando para oferecer alguns serviços e promoções..."
Eu: "Obrigada, mas eu não estou interessada"
Mocinha-da-Claro: "Mas como você não está interessada se você ainda nem sabe o que é?"
Eu: "Estou satisfeita na minha companhia, não pretendo trocar."
E então ela desliga o telefone na minha cara.
Gata, eu não tenho culpa se você escolheu um emprego escroto que não te satisfaz. Não posso fazer nada se você está de mal humor. Não tenho nada a ver com a sua vida, não posso te julgar. Mas a partir do momento que você me liga, interrompe seja lá o que for que eu estou fazendo e começa a falar de forma ininterrupta sobre alguma coisa que eu não pedi pra saber, quem deveria ficar irritada era eu, e não você.
Estamos entendidas? Espero que sim, porque eu também sei ser bem grossa quando eu preciso, ok?
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Eu deveria ser uma pessoa melhor hoje.
Ontem, depois de uma tarde cultural nos museus e livrarias do centro do Rio de Janeiro, sento-me com minha amiga num bar na rua do Ouvidor. Depois disso, o que ocorreu foi um quase estudo antropológico que era o que faltava para completar o meu dia. Eu não sabia, mas era exatamente o que faltava.
Antes de mais nada, ouvi a seguinte cantada: "Não sou Ana Maria Braga, mas sou mais você". Ótimo começo. (Nota mental: adotar isso para a vida)
Depois um hippie/artesão/filósofo chamado Calvin Felipe parou para conversar/fazer artesanato/esmolar. Essa foi, definitivamente, a melhor parte. "Ganhei" um anel (dei dois reais, não conta como comprar) com uma estrela/rosa que tem cinco pontas. Sabe porque tem cinco pontas? Porque uma equivale à paz, outra à união, a terceira significa liberdade, a quarta é a justiça e a última é a mais importante, o amor. Mais importante porque sem o amor não se consegue paz, união, liberdade e nem justiça. Lindo, não? Além disso, ainda tem o símbolo do infinito em cada ponta (não é o símbolo do infinito, mas a gente finge que é e segue com as nossas vidas), para que seja um ciclo, e eu sempre dê e receba paz, união, liberdade, justiça e, principalmente, amor.
Sabe porque ele me explicou tudo isso? Porque ele queria me passar os ensinamentos e as características da flexibilidade do rabo da lagartixa, a dureza do casco da tartaruga e da luminosidade do rabo do vaga-lume.
Então vamos lá: a flexibilidade do rabo da lagartixa - é para que eu possa chicotear (insira onomatopeia de chicote aqui) aqueles que querem me fazer mal; a dureza do casco da tartaruga - é para que, quando alguém tentar pisar em mim, não conseguir; e a luminosidade do rabo do vaga-lume - é para que eu ilumine sempre o caminho, tanto o meu quanto o dos que me cercam.
Achei tudo isso muito bonito. Eu com certeza teria passado o trajeto de volta para casa pensando sobre isso, assimilando isso, tentando, quem sabe, ampliar meu espectro de conhecimento com a filosofia que me foi passada de forma tão inesperada.
Teria, não fosse a absurda vontada de fazer xixi que me dominou. Aí não conegui pensar em mais nada.
É... infelizmente não foi dessa vez que eu virei um ser humano melhor.
Antes de mais nada, ouvi a seguinte cantada: "Não sou Ana Maria Braga, mas sou mais você". Ótimo começo. (Nota mental: adotar isso para a vida)
Depois um hippie/artesão/filósofo chamado Calvin Felipe parou para conversar/fazer artesanato/esmolar. Essa foi, definitivamente, a melhor parte. "Ganhei" um anel (dei dois reais, não conta como comprar) com uma estrela/rosa que tem cinco pontas. Sabe porque tem cinco pontas? Porque uma equivale à paz, outra à união, a terceira significa liberdade, a quarta é a justiça e a última é a mais importante, o amor. Mais importante porque sem o amor não se consegue paz, união, liberdade e nem justiça. Lindo, não? Além disso, ainda tem o símbolo do infinito em cada ponta (não é o símbolo do infinito, mas a gente finge que é e segue com as nossas vidas), para que seja um ciclo, e eu sempre dê e receba paz, união, liberdade, justiça e, principalmente, amor.
Sabe porque ele me explicou tudo isso? Porque ele queria me passar os ensinamentos e as características da flexibilidade do rabo da lagartixa, a dureza do casco da tartaruga e da luminosidade do rabo do vaga-lume.
Então vamos lá: a flexibilidade do rabo da lagartixa - é para que eu possa chicotear (insira onomatopeia de chicote aqui) aqueles que querem me fazer mal; a dureza do casco da tartaruga - é para que, quando alguém tentar pisar em mim, não conseguir; e a luminosidade do rabo do vaga-lume - é para que eu ilumine sempre o caminho, tanto o meu quanto o dos que me cercam.
Achei tudo isso muito bonito. Eu com certeza teria passado o trajeto de volta para casa pensando sobre isso, assimilando isso, tentando, quem sabe, ampliar meu espectro de conhecimento com a filosofia que me foi passada de forma tão inesperada.
Teria, não fosse a absurda vontada de fazer xixi que me dominou. Aí não conegui pensar em mais nada.
É... infelizmente não foi dessa vez que eu virei um ser humano melhor.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Nó (s).
Hoje, eu vou colocar tudo o que existiu de bom,
numa caixinha e dar um nó com laço de fita.
Tô pensando em deixar um bilhete, também.
Bem detalhado.
Pra se algum dia meu corpo esquecer,
a memória não falhar.
Que é pra guardar bem guardado o que existiu.
E fechar essa porta por inteiro.
numa caixinha e dar um nó com laço de fita.
Tô pensando em deixar um bilhete, também.
Bem detalhado.
Pra se algum dia meu corpo esquecer,
a memória não falhar.
Que é pra guardar bem guardado o que existiu.
E fechar essa porta por inteiro.
domingo, 12 de julho de 2009
Miscelânea de personalidades
Sou Ivan Karamázov: Bêbado, arruaceiro, ingênuo.
Sou Alexis Zorba: Alegre, festivo, apaixonado pelo sexo oposto.
Sou Bridget Jones: Paranóica, ridícula, derrotada.
Sou Fernão Capelo Gaivota: Sonhador, decidido, pária.
Sou Randle McMurphy: Problemático, violento, verdadeiro.
Sou Lestat de Lioncourt: Confuso, perdido, maldoso.
Sou Frankenstein: Uma mistura de muitos outros.
Sou Alexis Zorba: Alegre, festivo, apaixonado pelo sexo oposto.
Sou Bridget Jones: Paranóica, ridícula, derrotada.
Sou Fernão Capelo Gaivota: Sonhador, decidido, pária.
Sou Randle McMurphy: Problemático, violento, verdadeiro.
Sou Lestat de Lioncourt: Confuso, perdido, maldoso.
Sou Frankenstein: Uma mistura de muitos outros.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Maria Auxiliadora de Oxóssi
Toca a campainha. Homem ansioso atende:
Homem -Axé, Xangô! Bem-vinda a minha casa! (o homem se abaixa e beija a mão da mulher).
Mulher (diz meio sem graça)-Boa-tar... Tarde.
Homem -Olha, você está atrasada.
Mulher -O sinhô me disculpe. É que o ônibus demorou a passar e ond...
Homem - Isso é um sinal, não é?
Mulher (silêncio) -si-nal?
Homem -É. Sinal. Sabe quando a vida envia sinais pra gente? Vai ver eu devia desistir de fazer isso...
Mulher (meio sem entender) -Ah-rãm...
Homem -NÃO! Não. Eu vou fazer!! Não tenho que ter vergonha disso, não é? É normal.
Mulher -Pois é...
Homem -Então olha só, é a primeira vez que eu faço isso. Queria pedir uma certa discrição da parte da senhora... Eu sou um homem da alta sociedade, e pega mal se todo mundo ficar sabendo o que a senhora veio fazer aqui.
Mulher -Mas o sinhô jura?
Homem -Juro. As pessoas têm preconceito com esse tipo de coisa.
Mulher -É mermo? Engraçado. É só uma questão de limpeza.
Homem -Eu também acho!! (e segura na mão da mulher, que se assusta com o gesto)
Mulher -Bom, sinhô... Se o sinhô me der licença, eu vô começar a fazê o meu serviço.
Homem -Claro! Para isso a senhora está aqui. Eu tô inclusive me perguntando o que diabos são essas coisas todas que a senhora trouxe aí... (aponta para os baldes da mulher).
Mulher –Bom, isso aqui? Isso aqui é pra fazê a limpeza, né?
Homem -Ah, sim... Claro! Ah! Antes que eu me esqueça, a galinha preta ta na cozinha, viu?
Mulher -Hein?
Homem -A galinha preta. Fiquei bastante curioso... O que a senhora vai fazer com ela?
Mulher -Óia, dotôr... Se o sinhô quisé, eu posso cozinhar ela pro sinhô.
Homem -Cozinhar? A galinha preta??
Mulher –É, uai. Tem gente que come, tem gente que cria...
Homem -Galinha preta?
Mulher -Ochê, dotôr... a galinha só é preta por fora. Por dentro é igual às otra.
Homem -Ah, sim. E depois de cozinhar?
Mulher -Uai. Dispois o sinhô come.
Homem (assustado) -Eu como?!!
Mulher -É. O que sobrar é só guardar.
Homem (todo animado) -Ah! Já sei! Eu guardo atrás da porta! Não! Na quina do banheiro pro quarto não é?
Mulher (começando a ficar assustada) -Óia, dotôr. Eu não sei como o sinhô anda fazenô as coisa aqui na casa do sinhô... Mas as pessoas geralmente guardam na geladeira.
Homem (em estado de choque) -Na ge-la-dei-ra?
Mulher -É, ué. Naqueles tupperware, sabe? Aqueles recipiente. Onde se guarda comida. Que é pra não ficar tudo espalhado. Tu acha isso naquelas loja de um e noventa e nove.
Homem -Bom... Se você ta falando... E me diz, eu como a galinha com o que?
Quando a mulher vai começar a responder, ele interrompe.
Homem -Aaah! Não responde! Já sei! Eu como com pipoca! Não, é?
Mulher (com uma certa cara de nojinho) -É, er... bom, o sinhô é quem sabe... Eu prifiro com arroz e feijão...
Homem -Ahn.
(Mulher se agacha, pega os baldes, e começa a limpar a sala, achando o homem a criatura mais estranha do mundo. O homem se senta numa poltrona e fica observando.)
A mulher começa a ficar desconfortável, olha pra ele e dá um sorriso sem graça. Ele retribui.
Mulher -É, er... O sinhô vai ficar olhanô eu trabalhar?
Homem (desesperado) –Ai! Não pode? Eu sabia que tinha que ter pesquisado mais! E agora? Estraguei tudo? A senhora vai ter que voltar outro dia??
Mulher -Não, sinh...
Homem -Aaah! Eu sabia que a senhora ia ter que voltar outro dia!
Mulher -Não sinhô, tá tudo bem... (tentando acalmar o homem).
Homem –Bom, me diz... Eu não tinha que estar de roupa branca?
Mulher -Bom, dotôr. Branco mancha muito, né?
Homem -Entendi...
Fica um silêncio desconfortável no ambiente. A mulher está limpando, e o homem está olhando. Volta e meia, eles se olham e trocam cumprimentos com a cabeça.
Mulher (se levantando) -O sinhô me dá licença pra eu limpar essa poltrona?
Homem -Ué? E tem que limpar os móveis?
Mulher -Tem sim, sinhô. Mas você levanta, por favor, que eu tenho que começar pelo encosto.
Homem -e tem encosto na minha poltrona!??
(A mulher olha pra mobília contrariada.)
Mulher -O senhor tá brincando? É claro que tem encosto.
(Homem sai de perto da poltrona rapidamente)
Homem -A senhora me perdoa, eu acho que não sou muito sensitivo.
(A mulher começa a pegar algo para limpar)
Homem -Você usa sal grosso pra limpar o encosto?
Mulher -Sal grosso? Claro que não! Uso Veja.
Homem -Veja?? Veja limpa encosto????
Mulher -Lógico, homem, limpa e ainda deixa com cheirinho de lavanda.
(Homem fica assustado. E de pé resolve perguntar).
Homem -Bom, o que eu tenho que fazer agora? Meditar? Tomar banho de sal grosso?
Mulher – Óia, o sinhô faça o que o sinhô quisé, viu? Pode ficar a vontade. Se eu precisar de arguma coisa, eu procuro o sinhô.
Homem (meio ressentido) -Hmm. Tudo bem.
(Mulher começa a cantarolar a música da Escrava Isaura e volta a fazer a limpeza, mas logo é interrompida).
Homem -Ah! Antes que eu me esqueça. A vela branca e a farofa pronta da yorke estão na cozinha.
Mulher -A vela o que?
Homem -branca.
Mulher -branca?
Homem -... e a farofa, está tudo na cozinha. A galinha preta também.
Mulher (desconfiada) –Entendi. Então o sinhô não se incomoda, d’eu dar uma olhada na cozinha, né?
Homem -De jeito nenhum. Ela fica ali ó. (e aponta para fora da coxia).
Mulher sai. E ouve-se um berro.
Mulher volta correndo desesperada.
Mulher -Ôôôô, dotôr!!!! Mas a galinha tá viva!! Pelaamordavirgemsanta! O sinhô é doido! Não é possível!
Homem tenta falar com a mulher, mas ela começa a ter um ataque, recolhendo as coisas.
Mulher -Óia, só. O sinhô me dê licença, viu? Não! Não chega perto de mim não! Sai pra lá! Eu to aqui pra trabalhá! Fazer meu serviço. Eu tenho família pra criar. Eu vou-me embora dessa casa! Onde já se viu! Galinha com pipoca, meu sinhô?? Guardar galinha atrás de porta? O senhor tem pobrema! Devia procurar tratamento. Dá licença, viu? (e saí).
Homem continua no palco, meio sem entender. Toca o interfone.
Homem -Pois não? (pausa) Uma senhora aí embaixo? (pausa) Chamada Mãe de Oxóssi? Tá dizendo que eu to esperando por ela? Entendi. O senhor me faça um favor, senhor Sidnei? O senhor avise a ela, que ela está muito atrasada. E que agora eu não posso deixar ela subir, que tá quase na hora da faxineira chegar. (Bate o interfone).
Homem -Eu hein! Essa gente louca! (e sai).
B.O
Homem -Axé, Xangô! Bem-vinda a minha casa! (o homem se abaixa e beija a mão da mulher).
Mulher (diz meio sem graça)-Boa-tar... Tarde.
Homem -Olha, você está atrasada.
Mulher -O sinhô me disculpe. É que o ônibus demorou a passar e ond...
Homem - Isso é um sinal, não é?
Mulher (silêncio) -si-nal?
Homem -É. Sinal. Sabe quando a vida envia sinais pra gente? Vai ver eu devia desistir de fazer isso...
Mulher (meio sem entender) -Ah-rãm...
Homem -NÃO! Não. Eu vou fazer!! Não tenho que ter vergonha disso, não é? É normal.
Mulher -Pois é...
Homem -Então olha só, é a primeira vez que eu faço isso. Queria pedir uma certa discrição da parte da senhora... Eu sou um homem da alta sociedade, e pega mal se todo mundo ficar sabendo o que a senhora veio fazer aqui.
Mulher -Mas o sinhô jura?
Homem -Juro. As pessoas têm preconceito com esse tipo de coisa.
Mulher -É mermo? Engraçado. É só uma questão de limpeza.
Homem -Eu também acho!! (e segura na mão da mulher, que se assusta com o gesto)
Mulher -Bom, sinhô... Se o sinhô me der licença, eu vô começar a fazê o meu serviço.
Homem -Claro! Para isso a senhora está aqui. Eu tô inclusive me perguntando o que diabos são essas coisas todas que a senhora trouxe aí... (aponta para os baldes da mulher).
Mulher –Bom, isso aqui? Isso aqui é pra fazê a limpeza, né?
Homem -Ah, sim... Claro! Ah! Antes que eu me esqueça, a galinha preta ta na cozinha, viu?
Mulher -Hein?
Homem -A galinha preta. Fiquei bastante curioso... O que a senhora vai fazer com ela?
Mulher -Óia, dotôr... Se o sinhô quisé, eu posso cozinhar ela pro sinhô.
Homem -Cozinhar? A galinha preta??
Mulher –É, uai. Tem gente que come, tem gente que cria...
Homem -Galinha preta?
Mulher -Ochê, dotôr... a galinha só é preta por fora. Por dentro é igual às otra.
Homem -Ah, sim. E depois de cozinhar?
Mulher -Uai. Dispois o sinhô come.
Homem (assustado) -Eu como?!!
Mulher -É. O que sobrar é só guardar.
Homem (todo animado) -Ah! Já sei! Eu guardo atrás da porta! Não! Na quina do banheiro pro quarto não é?
Mulher (começando a ficar assustada) -Óia, dotôr. Eu não sei como o sinhô anda fazenô as coisa aqui na casa do sinhô... Mas as pessoas geralmente guardam na geladeira.
Homem (em estado de choque) -Na ge-la-dei-ra?
Mulher -É, ué. Naqueles tupperware, sabe? Aqueles recipiente. Onde se guarda comida. Que é pra não ficar tudo espalhado. Tu acha isso naquelas loja de um e noventa e nove.
Homem -Bom... Se você ta falando... E me diz, eu como a galinha com o que?
Quando a mulher vai começar a responder, ele interrompe.
Homem -Aaah! Não responde! Já sei! Eu como com pipoca! Não, é?
Mulher (com uma certa cara de nojinho) -É, er... bom, o sinhô é quem sabe... Eu prifiro com arroz e feijão...
Homem -Ahn.
(Mulher se agacha, pega os baldes, e começa a limpar a sala, achando o homem a criatura mais estranha do mundo. O homem se senta numa poltrona e fica observando.)
A mulher começa a ficar desconfortável, olha pra ele e dá um sorriso sem graça. Ele retribui.
Mulher -É, er... O sinhô vai ficar olhanô eu trabalhar?
Homem (desesperado) –Ai! Não pode? Eu sabia que tinha que ter pesquisado mais! E agora? Estraguei tudo? A senhora vai ter que voltar outro dia??
Mulher -Não, sinh...
Homem -Aaah! Eu sabia que a senhora ia ter que voltar outro dia!
Mulher -Não sinhô, tá tudo bem... (tentando acalmar o homem).
Homem –Bom, me diz... Eu não tinha que estar de roupa branca?
Mulher -Bom, dotôr. Branco mancha muito, né?
Homem -Entendi...
Fica um silêncio desconfortável no ambiente. A mulher está limpando, e o homem está olhando. Volta e meia, eles se olham e trocam cumprimentos com a cabeça.
Mulher (se levantando) -O sinhô me dá licença pra eu limpar essa poltrona?
Homem -Ué? E tem que limpar os móveis?
Mulher -Tem sim, sinhô. Mas você levanta, por favor, que eu tenho que começar pelo encosto.
Homem -e tem encosto na minha poltrona!??
(A mulher olha pra mobília contrariada.)
Mulher -O senhor tá brincando? É claro que tem encosto.
(Homem sai de perto da poltrona rapidamente)
Homem -A senhora me perdoa, eu acho que não sou muito sensitivo.
(A mulher começa a pegar algo para limpar)
Homem -Você usa sal grosso pra limpar o encosto?
Mulher -Sal grosso? Claro que não! Uso Veja.
Homem -Veja?? Veja limpa encosto????
Mulher -Lógico, homem, limpa e ainda deixa com cheirinho de lavanda.
(Homem fica assustado. E de pé resolve perguntar).
Homem -Bom, o que eu tenho que fazer agora? Meditar? Tomar banho de sal grosso?
Mulher – Óia, o sinhô faça o que o sinhô quisé, viu? Pode ficar a vontade. Se eu precisar de arguma coisa, eu procuro o sinhô.
Homem (meio ressentido) -Hmm. Tudo bem.
(Mulher começa a cantarolar a música da Escrava Isaura e volta a fazer a limpeza, mas logo é interrompida).
Homem -Ah! Antes que eu me esqueça. A vela branca e a farofa pronta da yorke estão na cozinha.
Mulher -A vela o que?
Homem -branca.
Mulher -branca?
Homem -... e a farofa, está tudo na cozinha. A galinha preta também.
Mulher (desconfiada) –Entendi. Então o sinhô não se incomoda, d’eu dar uma olhada na cozinha, né?
Homem -De jeito nenhum. Ela fica ali ó. (e aponta para fora da coxia).
Mulher sai. E ouve-se um berro.
Mulher volta correndo desesperada.
Mulher -Ôôôô, dotôr!!!! Mas a galinha tá viva!! Pelaamordavirgemsanta! O sinhô é doido! Não é possível!
Homem tenta falar com a mulher, mas ela começa a ter um ataque, recolhendo as coisas.
Mulher -Óia, só. O sinhô me dê licença, viu? Não! Não chega perto de mim não! Sai pra lá! Eu to aqui pra trabalhá! Fazer meu serviço. Eu tenho família pra criar. Eu vou-me embora dessa casa! Onde já se viu! Galinha com pipoca, meu sinhô?? Guardar galinha atrás de porta? O senhor tem pobrema! Devia procurar tratamento. Dá licença, viu? (e saí).
Homem continua no palco, meio sem entender. Toca o interfone.
Homem -Pois não? (pausa) Uma senhora aí embaixo? (pausa) Chamada Mãe de Oxóssi? Tá dizendo que eu to esperando por ela? Entendi. O senhor me faça um favor, senhor Sidnei? O senhor avise a ela, que ela está muito atrasada. E que agora eu não posso deixar ela subir, que tá quase na hora da faxineira chegar. (Bate o interfone).
Homem -Eu hein! Essa gente louca! (e sai).
B.O
domingo, 17 de maio de 2009
Terror de Pergunta Mongolóide
Olha, vamos deixar uma coisa bem clara aqui: nem sempre quando uma mulher está irritada é culpa da TPM. Por favor, não assumam imediatamente que qualquer variação no humor de uma fêmea da espécie humana é causada por seu ciclo menstrual.
Isso é uma coisa que me tira do sério. Qualquer resposta mais atravessada, qualquer olhar de desaprovação, qualquer leve elevação de voz é motivo para ouvir: “Ih, tá na TPM?”. Por quê? Por que é impossível uma mulher estar mal humorada pelo simples fato de estar mal humorada? Por que minha irritação deve obrigatoriamente ter alguma relação com meu estado hormonal? Caso vocês não saibam, mulheres também são seres humanos e, consequentemente, também estão sujeitas às desventuras e infortúnios de todo dia.
Ela pode ter levado uma multa, ter brigado com o chefe, ter recebido o troco errado na padaria. Acontece. Acontece com os homens também, alguém pergunta a um homem irritado: “Ih, não come ninguém há tempos?”, por um acaso?
A questão é: eu, por exemplo, não tenho variações de humor na TPM, pelo menos não que eu já tenha percebido ou que tenham me avisado. O meu grande problema é a cólica. O descolamento do endométrio, é isso que me mata. Às vezes parece que não são cólicas que eu estou sentindo, são contrações. Parece que eu estou em trabalho de parto. Fico deitada em posição fetal, não consigo me mexer e choro. Choro como um bebê. Isso sim me irrita. É isso que acaba comigo. Acho que se meu humor muda é por isso: raiva da dor que eu sinto. Raiva da dor e das pessoas que assumem que meu mau humor é causado por variações hormonais decorrentes do meu ciclo menstrual.
E antes que vocês perguntem, só para me irritar mais: Não, não estou na TPM.
Isso é uma coisa que me tira do sério. Qualquer resposta mais atravessada, qualquer olhar de desaprovação, qualquer leve elevação de voz é motivo para ouvir: “Ih, tá na TPM?”. Por quê? Por que é impossível uma mulher estar mal humorada pelo simples fato de estar mal humorada? Por que minha irritação deve obrigatoriamente ter alguma relação com meu estado hormonal? Caso vocês não saibam, mulheres também são seres humanos e, consequentemente, também estão sujeitas às desventuras e infortúnios de todo dia.
Ela pode ter levado uma multa, ter brigado com o chefe, ter recebido o troco errado na padaria. Acontece. Acontece com os homens também, alguém pergunta a um homem irritado: “Ih, não come ninguém há tempos?”, por um acaso?
A questão é: eu, por exemplo, não tenho variações de humor na TPM, pelo menos não que eu já tenha percebido ou que tenham me avisado. O meu grande problema é a cólica. O descolamento do endométrio, é isso que me mata. Às vezes parece que não são cólicas que eu estou sentindo, são contrações. Parece que eu estou em trabalho de parto. Fico deitada em posição fetal, não consigo me mexer e choro. Choro como um bebê. Isso sim me irrita. É isso que acaba comigo. Acho que se meu humor muda é por isso: raiva da dor que eu sinto. Raiva da dor e das pessoas que assumem que meu mau humor é causado por variações hormonais decorrentes do meu ciclo menstrual.
E antes que vocês perguntem, só para me irritar mais: Não, não estou na TPM.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Das coisas que a gente precisa.
Segunda-feira passada, meu computador foi diagnosticado com falência geral do processador. Ótimo momento para ele travar. Na reta final da monografia. Ótimo. Aliás, chega a ser engraçado. Mas enfim, lá foi ele para o conserto, com a promessa de sair do cti e retornar ao meu quarto na quarta-feira.
Mas isso não aconteceu. Liguei para o responsável pelo conserto do meu filhotinho, que há tão pouco tempo havia ganhado uma cirurgia plástica e tava de cara nova literalmente. Um monitor de lcd, 19 polegadas, lindo. Após a ligação soube que ele voltaria na sexta-feira.
Na quinta-feira pela manhã, me dirigi ao Centro da Cidade, para utilizar o computador da minha digníssima faculdade. E assim fiz. Após digitar coisas, modificar outras, salvei os respectivos arquivos no meu pen drive, para no dia seguinte passar tudo para o computador e assim seguir com a minha vida. Nada poderia dar errado, certo? Errado.
Na sexta-feira, no horário marcado para a chegada do tão esperado computador eu estava em casa com flores, bombons e um enorme sorriso no rosto. Pessoas haviam me ligado para saber se ele já havia chegado. Mensagens de texto foram enviadas e recebidas. E nada. Na-da.
Aquilo foi devastador. Acabou comigo.
Eram onze horas da noite quando saí de casa, peguei meu Celta prata e me dirigi à Botafogo, para afogar minhas mágoas com alguns amigos. Havia combinado de encontrá-los no Humaitá às onze e meia. Na realidade, eu havia saído com bastante antecedência, visto que o Humaitá é a dez minutos da minha residência, e mesmo assim não consegui chegar no horário marcado. Uma blitz. Uma blitz monstra. Uma blitz tão grande que não cabia no enquadramento do meu pára-brisa. Aquilo era um evento. Havia balões infláveis com os dizeres: "Lei Seca - Eu apóio", luzes piscando e muitas, muitas buzinas, que tocavam alternadamente, é claro, fazendo com que eu perguntasse a Deus por que eu não havia nascido surda. Depois de muito esperar, consegui chegar ao meu destino. Encontrei meus amigos, afoguei minhas mágoas, e voltei para buscar meu carro acreditando que a noite havia sido agradável e que as coisas ruins iriam acabar. Claro que não. Haviam arrombado meu carro, é claro. O vidro estava todo estilhaçado e havia um buraco no meio. Sim, um buraco. No meio do meu vidro. Do meu vidro.
Aquilo foi demais para mim. Abri a porta e verifiquei que meu som ainda estava ali. Firme e forte. Um pouco traumatizado, é claro. Como já esperava estava tudo revirado. Meu porta-luvas não portava mais nada, as coisas que estavam na mala, agora se encontravam no banco do carona e meus cd's estavam minuciosamente espalhados pelo chão, posso até afirmar que o Chico Buarque tentou arrancar com o carro, visto que o mesmo estava apoiado no acelerador. Comecei a recolher as coisas, embalada por inúmeros palavrões que é melhor não citar aqui, e fui checar o que estava faltando. É claro que alguma coisa tinha que estar faltando. Foi quando me dei conta de uma coisa que não estava mais entre nós. Uma coisa pequena por fora, mas grande por dentro. Exatamente 1Gb. O meu pen-drive.
O mesmo que portava com tanta segurança o meu projeto final da faculdade. O mesmo que no dia anterior havia me acompanhado a um computador desconhecido na faculdade e salvo meus arquivos modificados. O meu fiel companheiro havia sido levado, e aquilo foi a gota d'água. Por alguns minutos me transformei num monstro no meio de Botafogo. Fui dominada por um ódio que há muito tempo não sentia. Gritei palavrões que jamais havia gritado.
Xinguei o governo e senti vergonha da minha cidade. Iniciei um questionamento em voz alta a esse "Choque de Ordem", que nada ordena. Um questionamento aos impostos que são pagos por mim por possuir um carro, aos inúmeros dois reais pagos a Prefeitura toda vez que estaciono no espaço público da cidade, e no final me vi assistida pelos meus amigos e por um mendigo, que me olhava bastante assustado. Daí parei. Me despedi dos meus amigos, e voltei para casa.
Passei meu final de semana pensando nisso. Na cara assustada daquele mendigo, que me olhava com desaprovação e receio.
Hoje já é segunda-feira e meu computador ainda não chegou. Deve voltar amanhã. E eu vou terminar a minha monografia. Vou reescrever tudo. Entregar na data certa. E vou me formar. Por que, por mais que isso pareça mais um caso dentre milhões de outros o que a gente precisa é de educação.
O rosto daquele mendigo não me engana. Exclusão digital é foda.
Pelo menos eu ainda tenho saúde.
Ainda.
Mas isso não aconteceu. Liguei para o responsável pelo conserto do meu filhotinho, que há tão pouco tempo havia ganhado uma cirurgia plástica e tava de cara nova literalmente. Um monitor de lcd, 19 polegadas, lindo. Após a ligação soube que ele voltaria na sexta-feira.
Na quinta-feira pela manhã, me dirigi ao Centro da Cidade, para utilizar o computador da minha digníssima faculdade. E assim fiz. Após digitar coisas, modificar outras, salvei os respectivos arquivos no meu pen drive, para no dia seguinte passar tudo para o computador e assim seguir com a minha vida. Nada poderia dar errado, certo? Errado.
Na sexta-feira, no horário marcado para a chegada do tão esperado computador eu estava em casa com flores, bombons e um enorme sorriso no rosto. Pessoas haviam me ligado para saber se ele já havia chegado. Mensagens de texto foram enviadas e recebidas. E nada. Na-da.
Aquilo foi devastador. Acabou comigo.
Eram onze horas da noite quando saí de casa, peguei meu Celta prata e me dirigi à Botafogo, para afogar minhas mágoas com alguns amigos. Havia combinado de encontrá-los no Humaitá às onze e meia. Na realidade, eu havia saído com bastante antecedência, visto que o Humaitá é a dez minutos da minha residência, e mesmo assim não consegui chegar no horário marcado. Uma blitz. Uma blitz monstra. Uma blitz tão grande que não cabia no enquadramento do meu pára-brisa. Aquilo era um evento. Havia balões infláveis com os dizeres: "Lei Seca - Eu apóio", luzes piscando e muitas, muitas buzinas, que tocavam alternadamente, é claro, fazendo com que eu perguntasse a Deus por que eu não havia nascido surda. Depois de muito esperar, consegui chegar ao meu destino. Encontrei meus amigos, afoguei minhas mágoas, e voltei para buscar meu carro acreditando que a noite havia sido agradável e que as coisas ruins iriam acabar. Claro que não. Haviam arrombado meu carro, é claro. O vidro estava todo estilhaçado e havia um buraco no meio. Sim, um buraco. No meio do meu vidro. Do meu vidro.
Aquilo foi demais para mim. Abri a porta e verifiquei que meu som ainda estava ali. Firme e forte. Um pouco traumatizado, é claro. Como já esperava estava tudo revirado. Meu porta-luvas não portava mais nada, as coisas que estavam na mala, agora se encontravam no banco do carona e meus cd's estavam minuciosamente espalhados pelo chão, posso até afirmar que o Chico Buarque tentou arrancar com o carro, visto que o mesmo estava apoiado no acelerador. Comecei a recolher as coisas, embalada por inúmeros palavrões que é melhor não citar aqui, e fui checar o que estava faltando. É claro que alguma coisa tinha que estar faltando. Foi quando me dei conta de uma coisa que não estava mais entre nós. Uma coisa pequena por fora, mas grande por dentro. Exatamente 1Gb. O meu pen-drive.
O mesmo que portava com tanta segurança o meu projeto final da faculdade. O mesmo que no dia anterior havia me acompanhado a um computador desconhecido na faculdade e salvo meus arquivos modificados. O meu fiel companheiro havia sido levado, e aquilo foi a gota d'água. Por alguns minutos me transformei num monstro no meio de Botafogo. Fui dominada por um ódio que há muito tempo não sentia. Gritei palavrões que jamais havia gritado.
Xinguei o governo e senti vergonha da minha cidade. Iniciei um questionamento em voz alta a esse "Choque de Ordem", que nada ordena. Um questionamento aos impostos que são pagos por mim por possuir um carro, aos inúmeros dois reais pagos a Prefeitura toda vez que estaciono no espaço público da cidade, e no final me vi assistida pelos meus amigos e por um mendigo, que me olhava bastante assustado. Daí parei. Me despedi dos meus amigos, e voltei para casa.
Passei meu final de semana pensando nisso. Na cara assustada daquele mendigo, que me olhava com desaprovação e receio.
Hoje já é segunda-feira e meu computador ainda não chegou. Deve voltar amanhã. E eu vou terminar a minha monografia. Vou reescrever tudo. Entregar na data certa. E vou me formar. Por que, por mais que isso pareça mais um caso dentre milhões de outros o que a gente precisa é de educação.
O rosto daquele mendigo não me engana. Exclusão digital é foda.
Pelo menos eu ainda tenho saúde.
Ainda.
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